O Irã executou pelo menos 1.639 pessoas em 2025, um aumento de 68% em relação ao ano anterior e o maior número de execuções desde 1989, segundo relatório conjunto de duas organizações de direitos humanos.
A Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, e a Together Against the Death Penalty (ECPM), com sede em Paris, documentaram as execuções em seu relatório anual, que incluiu 48 mulheres entre os enforcados. O número representa uma média de mais de quatro execuções por dia ao longo de 2025.
As organizações alertaram que o uso da pena de morte pelo Irã pode aumentar ainda mais, já que a República Islâmica enfrenta protestos internos e pressão militar externa decorrente de seu conflito em andamento com Israel e os Estados Unidos, iniciado em fevereiro.
Se a república islâmica sobreviver à crise atual, há um sério risco de que as execuções sejam usadas de forma ainda mais extensiva como ferramenta de opressão e repressão
Relatório conjunto — IHR e ECPM
A IHR, que exige verificação de pelo menos duas fontes independentes antes de confirmar uma execução, enfatizou que a cifra de 1.639 representa um 'mínimo absoluto', já que a maioria das execuções não é noticiada pela mídia estatal iraniana. O número real provavelmente é maior.
A mídia francesa enquadra o aumento das execuções no Irã como uma repressão estatal sistemática, destacando o uso da pena de morte pelo regime como uma arma política. A forte oposição da França à pena de morte e seu apoio à ativismo de direitos humanos moldam a cobertura, que condena as ações do Irã como violações do direito internacional.
Meios israelenses enfatizam a brutalidade interna do Irã como evidência do caráter autoritário do regime, ligando a repressão doméstica à agressão regional do país. Essa abordagem apoia a narrativa de Israel de que o Irã representa uma ameaça fundamental à estabilidade e aos direitos humanos na região.
A cobertura de Singapura adota uma postura equilibrada, focando em fatos documentados e análises de especialistas, sem condenações diretas. Como um hub regional com relações complexas no Oriente Médio, a mídia de Singapura mantém neutralidade diplomática ao relatar preocupações com direitos humanos.
A mídia americana enquadra o aumento das execuções no Irã no contexto mais amplo das tensões entre EUA e Irã, retratando-o como evidência do desespero do regime diante da pressão militar. A cobertura enfatiza as violações de direitos humanos do Irã para justificar a oposição e sanções americanas contínuas.
A mídia indiana enquadra o aumento das execuções no Irã como evidência de repressão política sistemática e perseguição a minorias, destacando o alvo a grupos curdos e balúchis para ressaltar a instabilidade interna do país. Essa narrativa serve aos interesses estratégicos da Índia, retratando o Irã como um Estado cada vez mais autoritário, enquanto o país se posiciona como uma alternativa democrática estável em parcerias regionais.
Meios acessíveis na Arábia Saudita conectam diretamente o pico de execuções no Irã a conflitos regionais, ligando a repressão aos protestos e às confrontações do país com Israel e os EUA. Essa abordagem reforça a narrativa saudita de que o Irã é um ator regional desestabilizador, cuja repressão doméstica reflete sua ameaça mais ampla à estabilidade e segurança do Oriente Médio.
A cobertura da mídia turca apresenta as execuções no contexto mais amplo das agitações domésticas simultâneas do Irã e seus engajamentos militares externos, sugerindo um regime sob múltiplas pressões. Essa abordagem equilibrada reflete a relação complexa da Turquia com o Irã, onde Ancara precisa equilibrar críticas às violações de direitos humanos com a manutenção de uma cooperação regional pragmática.
O aumento nas execuções coincidiu com a violenta repressão do Irã aos protestos generalizados em janeiro de 2026, que, segundo grupos de direitos humanos, resultou em milhares de mortes e dezenas de milhares de prisões. Mesmo durante a guerra atual, as autoridades iranianas executaram sete pessoas ligadas aos protestos de janeiro.
Ao criar medo por meio de uma média de quatro a cinco execuções por dia em 2025, as autoridades tentaram evitar novos protestos e prolongar seu frágil poder
Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHR — Al-Monitor
As execuções atingiram desproporcionalmente minorias étnicas, especialmente as populações curdas no oeste do Irã e as comunidades balúchis no sudeste. Ambos os grupos seguem majoritariamente o islamismo sunita, em contraste com o ramo xiita dominante no país, o que os torna alvos frequentes de perseguição estatal.
Quase metade dos executados havia sido condenada por crimes relacionados a drogas, enquanto o número de mulheres executadas atingiu o maior patamar em mais de duas décadas. Das 48 mulheres enforcadas, 21 foram condenadas por matar seus maridos ou noivos, e grupos de direitos humanos destacam que muitas provavelmente eram vítimas de violência doméstica.
A pena de morte no Irã é usada como uma ferramenta política de opressão e repressão, com minorias étnicas e outros grupos marginalizados representados de forma desproporcional entre os executados
Raphael Chenuil-Hazan, diretor executivo da ECPM — Straits Times
Embora a maioria das execuções tenha ocorrido dentro de prisões, os enforcamentos públicos mais do que triplicaram, chegando a 11 casos em 2025, sinalizando um esforço aparente para maximizar o efeito dissuasório por meio de espetáculos públicos.
O relatório é publicado enquanto centenas de manifestantes detidos ainda enfrentam risco de sentenças de morte por sua participação na revolta de janeiro, levantando preocupações de que a taxa de execuções do Irã possa subir ainda mais em 2026, à medida que o regime busca consolidar o controle diante de pressões domésticas e internacionais crescentes.